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14 de novembro de 2015

Vamos falar de murais escolares? Você retrata todos os seus alunos ou alguns são invisíveis?

       Participei da III Jornada para Educação Étnico Raciais no Museu de Arte do Rio, teve duração de três dias. Assisti várias apresentações de comunicações de professores e pesquisadores com o tema, todas enriquecedoras. 

      Nessa postagem vou destacar a apresentação da professora do Instituto Federal do Maranhão Liliam Teresa Martins Freitas, graduada em Pedagogia pela UEMA, especialista em Cultura Afro-brasileira pela Faculdade Internacional Signorelli, Mestranda em Educação pela UFF. Ela apresentou parte de sua investigação de mestrado intitulada: “A (in) visibilidade de crianças negras em uma instituição de educação infantil". 

      Ela esteve em várias escolas em Codó, no Maranhão, fazendo suas investigações e fotografou diversos murais escolares. A conclusão que chegou foi que para alguns professores, coordenadores e diretores as crianças negras são invisíveis. As paredes das escolas não retratam todas as crianças que estão lá. O que a ajudou chegar nessa conclusão foram às respostas dadas por esses profissionais "nunca percebi", entre outras respostas de mesmo sentido.


      Se a escola está cheia de alunas e alunos negros como ninguém percebeu? Comecei a lembrar de escolas que já estudei, estagiei ou trabalhei. Eu e todos os alunos iguais a mim passamos despercebidos por lá. Tem professor que acha desnecessário esse tipo de observação, mas vale lembrar que é justamente a falta de representatividade nas escolas e TV que faz as atitudes racistas se arrastarem pós-abolição. Se negar a incluir todas as etnias e a mistura que compõe o povo brasileiro pelas paredes das escolas, com desculpa que "criança não liga pra isso" é ser omisso ou conivente ao racismo. 

      Como dizer por aí "somos todos humanos", "somos todos iguais" e se recusar a combater a desigualdade ao mesmo tempo? Falar para uma criança ignorar o que disseram de ruim a ela só faz alimentar o racismo. Isso se chama dar razão ao racista, essa atitude fará com que ele cresça achando que tem o direito de ofender, e que o outro terá sempre a obrigação de superar.  Fazer com que a criança que sofreu o ataque, encontre forças sabe lá de onde para superar faz com que ela pense que tem algo errado com ela, e todos sabemos que não. E escola não é lugar de incentivo ao crime.

      Não fazer a criança negra se ver no local que estuda e se sentir parte dele, atrapalha a criança a fazer seu autorretrato. Quando for solicitado que desenhe a si mesma, ela vai se desenhar de pele branca ou rosada (não existe ninguém cor de rosa só a Pepa), e depois o professor terá a coragem de dizer para os colegas que o aluno "tal" é racista com ele mesmo, sem enxergar a contribuição que deu  para essa situação. Já escutei essa besteira no trabalho. 

      Em uma escola em Minas Gerais um aluno da Educação Infantil se cobriu inteiro de pasta de dente, pois não queria ser negro. Agora pense: como uma criança vai construir sua identidade em um local que diz o tempo todo que ela é invisível? O professor e a escola não têm culpa do que aparece na mídia, mas dentro de sua escola e sala de aula pode fazer a diferença com ações simples, mesmo dentro da correria que acontece no decorrer das aulas.

      Vamos analisar alguns murais que encontrei pela internet, da mesma forma que foi feito na apresentação da professora Liliam. Logicamente que os locais que os produziram não possuem responsabilidade alguma, pois fazem aquilo que seus clientes professores, coordenadores e diretores encomendam. Quando passarem a solicitar personagens negros eles o farão.

Murais de boas vindas
imagem: marcelacristinablogspot

imagem: redenovaescolaclube.org.br
Murais de aviso no banheiro
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Murais da creche
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Mural do Dia das mães


imagem: dessiral
Mural do Dia das Crianças


imagem: atividadeseducaçãoinfantil
Mural do Dia dos professores -  Se for a própria professora que fez  retratando ela mesma, não tem problema, mas se for homenagem da escola para suas funcionárias é péssimo. No caso abaixo essa professora só ensina para alunos brancos, assim diz o mural.

imagem: Semect Caldas Novas Go
Mural de Natal
imagem: classeo2doaraporanga
Lembrancinhas
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      Bom, concluímos que em todas essas escolas não tem alunos negros, ninguém percebe a presença deles lá. Pra quem pensa que a Educação sempre funcionou sem precisar desse tipo de observação, resposta: Pensar assim é uma herança escravocrata. Herança do tempo que existiam leis proibindo a presença de negros na escola. 

      Nenhum educador pensa assim eu acredito. Quando fez isso foi por costume. Então vamos mudar e acabar com esse costume! Vamos analisar bons murais que achei na internet:


Murais ideais
Google imagens

fonte na imagem
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      Essa é uma forma simples de trabalhar Educação para Relações Étnico Raciais na escola. Nem sempre é preciso falar, basta representar. Falar da criança negra somente no folclore e na semana da Consciência Negra é o mesmo que dizer a ela que sua presença nas escola só  é bem vinda apenas nas datas comemorativas. 

9 de novembro de 2015

Minha transição capilar - A história e fotos

   Cabelo é um assunto muito importante para pessoas afro-descendentes. É um símbolo de identidade. O objetivo dessa postagem é incentivar pessoas que estão na transição capilar ou querem iniciar o processo, mas ainda estão criando coragem. No Youtube e na blogosfera têm muitas pessoas registrando suas transições e ajudando e confortando outras com seus registros. Foram delas que tirei forças quando meu cabelo foi entrando em determinadas fases, sei o quanto é importante. Agora estou fazendo o mesmo, quanto mais histórias conhecemos nessa fase, mais determinadas ficamos.   

      Vou iniciar a história em dezembro de 2010. Cacheado. Sempre usei o cabelo assim. Era feliz com meu cabelo e não era adepta de fazer escova em momento algum. Fazia relaxamento com o objetivo de definir (aqui tem várias histórias para contar) os cachos e só.
      
      Antes da época dessa foto, eu dei aulas em um local onde a coordenadora sempre fazia alguns comentários abusivos, dizia que eu não tinha cara de professora, fazia comentários de péssimo gosto sobre o cabelo estar lavado ou não. Cabelos cacheados crespos estão sempre sendo lavados e umidificados para facilitar a finalização dos penteados, então não compreendia bem a intenção do comentário. Ela dizia que eu não tinha uma cara como as outras professoras da escola, as que eram negras eram escovadas e uma delas usava implante. Ela estava sempre colocando dúvidas sobre minha capacidade de ensino e, quando estava engraçadinha, tinha um comentário sobre meu cabelo. Já tinha dado aulas em outras escolas e isso não havia acontecido. Eu não sabia que isso era racismo (ou injúria), já que em momento algum ela se referia a minha etnia ou cor da pele. Hoje sei que era, caso aconteça em outra situação, minha providência será:"polícia já"!  Fui trabalhar em outro local após o fim do ano letivo e, vida que segue, nunca mais passei por isso. 
     
       Fui fazer relaxamento novamente e o cabelo ficou bem ressecado, normal o relaxamento sempre fazia isso. Fui a um salão perto da minha casa fazer algum tratamento para o ressecamento, o salão que fazia relaxamento era em outro bairro. A indicação foi um tratamento usando prancha e queratina, saí de lá com ele "pranchado", a cabeleireira garantiu que após a primeira lavagem ele voltaria a ficar como na foto acima. Lavei e ele ficou terrível. As mechas eram metade lisas e metade enroladas, pontas lisas e raízes crespas, raízes lisas e pontas enroladas, uma loucura. Voltei lá, ela disse que tudo voltaria ao normal e que eu continuasse lavando bastante. Ele não voltou, fiquei com raiva, não acreditava mais nela, nunca mais voltei lá. Segui fazendo escova simples para esconder essa bagunça. Vi que nada que eu fizesse faria ele voltar, só o corte. Até que outra cabeleireira me sugeriu a progressiva. Vi como uma solução e gostei. Era melhor do que cortar.

      A foto abaixo foi em abril de 2011. É a primeira foto com ele completamente alisado, já tinha tomado a decisão que seria alisada e pronto, eu podia molhar e nada de enrolar. Hoje sei que nada faria ele enrolar, pois muitas vezes alisei o cabelo somente com esse processo: queratina, prancha e mais nada, na fase alisada.


      As pessoas adoravam esse cabelo, sempre tinham elogios. No trabalho ouvi a frase: "Hoje que está arrumada, fica na frente na hora da apresentação". Como assim hoje está arrumada? Com o cabelo cacheado não estava arrumada e sim descabelada? Essa frase me fez entender o que as pessoas pensam sobre cabelo cacheado crespo. E mesmo assim não tomei nenhuma providência, achei que era importante para meu lado profissional. 

      Quanta besteira. Aqui já seria mais um motivo pra desistir dessa ideia, processar quem errou no meu cabelo e cortar, entender o que aconteceu como um dano a minha estética. Essa é a diferença entre uma pessoa com a identidade formada, com conhecimentos plenos de sua etnia e uma que acha que tem tudo isso e na verdade não tem. Por isso comecei a escrever sobre isso aqui no blog, tudo o que eu aprender sobre a história afro servirá para conscientização e formação de identidade de quem tiver a oportunidade de ler. Os professores são parte importante, pois a falta de conhecimento sobre a história e etnia do outro leva a pensamentos como "estar arrumada com cabelos alisados".  
      
     Desde que iniciei a progressiva, não fiz mais relaxamento. Assim que a parte onde só tinha produto da escova cresceu, cortei o cabelo. Foto abaixo tirada em julho de 2013.

      O tempo foi passando e eu comecei a me sentir presa a escova, pois tinha que fazer mensalmente, meu cabelo é muito enrolado, logo aparecia a diferença. Gastava muito dinheiro com isso. O cabelo foi ficando desbotado, extremamente oleoso, com as pontas feias. Comecei a pensar em voltar a usá- lo natural, porém não tinha coragem de cortar. Assisti vídeos onde as moças falavam do corte, achei que nunca faria. Vinha meu casamento em 2014, como casaria com ele cortado, eu pensava. 

      Casei (fotos aqui) e tive queda de cabelo logo em seguida, devido ao estresse da organização do casamento (descobri que isso acontece com muitas mulheres). Depois eles voltaram ao normal e eu continuei a me sentir comandada pelo cabelo e jogando dinheiro no lixo. Comecei a pensar na transição novamente. Essa foto é uma das últimas de 2014, com ele 100% escovado:

      Decisão tomada. Modo transição ON. A foto abaixo foi em dezembro de 2014. Estava me sentindo insegura, o cabelo foi ficando esquisito.
                                                                                                                                                                
      O engraçado é que os olhares estranhos logo aparecem. Você passa por uma mulher descuidada. As pessoas fazem comentários associando a falta de dinheiro, indicam um salão com escova progressiva baratinha sem você pedir informação, criam fatos como: "com a correria nem fez escova né!". Tudo isso sem perguntar nada a você. Imaginam e respondem ou te fazem perguntas e elas mesmo respondem kkkkk. Minha resposta, quando realmente tinha a chance de conseguir responder, era a mesma: "Estou deixando ele voltar ao natural". Via olhares de desconfiança ou frases como: "Duvido que consiga!" , "Será que volta?" ou "Salão X está com a escova na promoção". Já estava blindada, nem ligava. A foto abaixo foi em abril de 2015.
                                               
      Aqui foi meu primeiro corte, as pontas foram arrebentando, senti necessidade de cortar. Com a parte crescida, muitas pessoas começaram a compreender o que estava acontecendo. Tiveram a certeza do que eu estava fazendo a partir dessa foto. Tive muita força das pessoas ao postá-la no meu Facebook. Mas na vida real ouvi a frase: "Que bom que está tirando a progressiva, mas você vai fazer relaxamento pra ficar arrumada né?". A foto foi tirada em julho de 2015, porém só postada em agosto.


     As fotos abaixo foram tiradas em outubro de 2015. Com as pontas arrebentadas fiz mais um corte.

       Aqui comecei a cuidar dos cabelos como cacheado. A moça da loja de cosméticos sugeriu que eu fizesse o registro da minha transição e fotografasse os cabelos por dentro, achei a ideia legal (assim que surgiu a ideia dessa postagem). As fotos foram tiradas em meados de outubro de 2015.

      Ao ver essas fotos tive vontade de cortar mais um pouco. A foto abaixo foi tirada no início de novembro. Tinha acabado de acordar, umidifiquei o cabelo e fotografei. Odiei essa foto, mas é o último registro da parte alisada.

      Me senti tão estranha, que decidi fazer o big chop (como chamam nos vídeos do YouTube o corte que retira todos as partes alisadas). Quando vi a foto, percebi que não fazia mais sentido manter essas partes. A parte de trás estava quase toda natural. Fui dormir, acordei às 6h da manhã do dia 3 de novembro e cortei tudo sem pensar. 
      Ainda estava incrédula com a minha coragem. Foto minutos após cortar, ainda com cara de sono.

      Vale registrar que todos os cortes foram feitos por mim. Uma loucura, não sou cabeleireira! Se eu causasse um dano na parte alisada do cabelo, não seria problema. Queria acabar com ela, seria um motivo a mais para cortar.
       Ainda estou me adaptando, agora é cuidar e deixar ele crescer curtindo cada etapa do crescimento.

Antes, durante e depois:

23 de outubro de 2015

A princesa do shampoo Johnson's

      Fui marcada em uma postagem na rede social que parecia tão simples, o comercial do shampoo Johnson's. A propaganda apresenta um shampoo para crianças com um determinado tipo de cabelo. Até aí tudo bem, eles andam vendendo produtos para todos os tipos de cabelos infantis. Apesar de parecer uma fofura, ela se tornou de mal gosto ao apresentar a frase: "Sua princesa com cabelos de princesa". 

      Fiquei pensando sobre o que é ter cabelos de princesa. Fui lembrando das vezes em que ouvi as meninas dizerem que estão se sentindo como uma princesa. São os momentos que estão com um belo penteado nos cabelos ou usando neles fitas, acessórios e turbantes, quando estão perfumadas e com uma roupa que acham bonita. Então cheguei a conclusão que todas as meninas podem ser princesas, todas possuem a beleza da infância e quando se penteiam e se ornam ficam ainda mais charmosas mesmo, elas têm razão.

     Bom, acho que muitas pessoas concordam com esses critérios que determinam o que é um "cabelo de princesa" na visão das meninas. Mas a empresa do shampoo não pensa isso não, segundo o comercial abaixo:

      Fiquei pensando nas meninas de cabelos crespos e ondulados, de cinco e seis anos, que assistiram esse comercial. Lógico que elas não têm idade para saber se estão dizendo que podem ou não ser princesas, isso está no entendimento do adulto. Mas elas estão na idade dos sonhos e fantasias, de querer ser e pertencer. Quando estiverem na escola e o tema da brincadeira for "princesa", as amiguinhas que correspondem ao modelo princesa Johnson's dirão a elas: -Você não pode ser a princesa, você não combina. Os meninos não aceitarão o que, para eles, não é uma princesa de verdade. Aí também incluo os meninos de cabelos crespos e ondulados. Todas essas crianças farão isso com propriedade, pois aprenderam na TV. Para elas tudo o que aparece lá é o correto. Essas meninas começarão a pensar nas mudanças urgentes que precisam fazer nelas mesmas, pensarão que algo está errado e precisa ser corrigido, assim na próxima vez serão princesas.

      Vai ter gente para dizer que as mães delas vão saber lidar com isso muito bem e explicarão corretamente que não tem nada de errado com elas. Bom, ouvir isso é o mesmo que ver adulto sonhando com contos de fadas. As mães dessas meninas também cresceram acreditando que tinha algo errado com elas. Também assistiram comerciais que "explicavam" muito bem seus supostos defeitos. Algumas contarão com a sorte de ter mães que resistiram às informações, mas outras não.

Krespinha esponja de aço 1952 - Fonte O Estado de São Paulo
      Essa propaganda de 1952 é um exemplo. Ela está divulgando uma esponja de aço para lavar louças. É dessa forma que as mães, avós, bisavós das meninas de hoje, cresceram vendo seus cabelos. Só de ver a propaganda, dá para entender o motivo delas acharem os próprios cabelos uma tristeza.       Por causa de coisas assim, como essa aí ao lado, que hoje tem pessoas que usam palavras pejorativas para o cabelo crespo.        Então, essas mulheres tratavam de transformar os cabelos quimicamente para não serem alvos de comentários. Só se viam nas propagandas representadas de forma ofensiva ou eram invisíveis. 


       Quem foi nascendo em meio a isso, de tanto ouvir as pessoas falarem mal nas ruas e TV, cresceu achando normal não ver a beleza do próprio cabelo . O vídeo abaixo é um comercial de shampoo, Colorama da Bozzano de 1976, mostra a invisibilidade dos cabelos crespos e mulheres negras nos comerciais de shampoo.

      Quando a pessoa não se encontra em nada que corresponde ao seu cabelo e a sua etnia, ela começa a achar que o problema está com ela. Então ela tenta transformar isso para se adequar. As soluções eram os produtos químicos. Muitas mulheres com cabelos crespos usavam henê nos anos 70, mas os comerciais desses produtos também não retratavam mulheres semelhantes. Assistam o vídeo do Henê Pelúcia, em 1977,  abaixo:


      A diferença dessas propagandas antigas para as de hoje é que a ofensa era permitida, como na propaganda da esponja de aço, e não retratar todas as etnias do povo brasileiro, como nos comerciais de cabelo, era uma coisa normal. Então eles seguiam ensinando as pessoas negras a não se encontrarem em nada, a não gostarem delas mesmas, a achar que tudo em sua aparência estava errado, a admirar a etnia do outro e a rir de si mesmas. 

     Se os negros encontram dificuldades de questionar sobre isso hoje, imagina na época que o racismo não era considerado crime. Então está explicado porque nem todas as mães dessas meninas conseguirão explicar as suas filhas que elas podem sim ser princesas. Sofreram a mesma coisa na infância.

       As meninas negras do passado cresceram recebendo o seguinte recado através das propagandas das empresas: Você não existe aqui. As de hoje recebem o recado da Johnson's: Você não tem cabelo de princesa.

     Felizmente hoje podemos reclamar, mas ainda não somos respeitadas por todos. Agora virou moda dizer que quem reclama por não ser visto nas propagandas ou por receber mensagens de exclusão, como essa da Johnson's, reclama de tudo. É interessante ouvir: - Ah, antigamente não era essa chatice, hoje não se pode nem mais fazer piada com nada, falar nada que vem essa gente dizer que é racismo! Se você acha engraçado rir de etnias que não são as suas e acha normal dizer às meninas que elas não podem ser princesas, pois seus cabelos não são adequados, sabendo da importância disso na infância, se cuide, tem algo errado com você. Procure um especialista. 

      As propagandas seguem de geração em geração baixando a autoestima das pessoas. Só que a Johnson's não é tão ruim assim. Vale destacar, que a empresa lançou também um shampoo para cabelos cacheados das crianças há pouco tempo e a propaganda foi interessante. Nos EUA, ela atende a todas as etnias do país. Lá suas propagandas são dirigidas a todos. Só aqui no Brasil que ela nos manteve invisíveis por todos esses anos. Essa propaganda abaixo é dos anos 70, nos EUA é claro:
                                                Se alguém me contasse, eu não acreditaria. 

      Não tem problema um comercial ou produto ser destinado a um tipo de cabelo. Cabelos são diferentes, tanto lisos, crespos quanto ondulados. Cada um é cuidado de uma forma. O problema são as frases que excluem e incentivam um grupo de crianças a não gostarem de si mesmas e as outras a não aceitarem as diferenças.  

        Tem gente que adora dizer que alguns negros são racistas com eles mesmos. Só esquecem de dizer os motivos: foram ensinados por anos a serem assim. Foram criados por pessoas que foram ensinadas da mesma forma. Assistiram informações assim a infância inteira, desde que inventaram a TV. Agora esse comercial da Johnson's presta sua colaboração.

         Existiu uma pessoa que já analisava isso, pensava a frente do seu tempo: Malcolm X. Ele deixou muitas mensagens e essa é adequada para o parágrafo acima. Reflitam.


12 de outubro de 2015

Fazer questão de usar nomes pejorativos para cabelos revela sua intolerância racial

      Cabelo duro e ruim não existe.
      Não queria trazer esse assunto para o meu blog, essas questões já deveriam ser de conhecimento de todos há muito tempo, algo resolvido e encerrado. Mas de tanto ouvir e ler comentários que me deram vergonha alheia, decidi escrever. Optei em não colocar o nome dos sites, revistas e pessoas. Não é disso que quero tratar aqui. Na internet tem vários comentários, alguns até piores que esses em vários locais. Ao ler alguns deles, pensei que um dos motivos para as pessoas ainda não usarem o nome correto do cabelo crespo seja falta de informação. Então resolvi pesquisar, colaborar para que as pessoas se informem sobre os tipos de cabelo dos seres humanos e o significado das palavras ruim, duro, etnia e grupo étnico. (pesquisa no fim do post)

      Frase de uma senhora nos comentários de uma coluna em um site:   
      Em outra situação, ao defender um artista que falou de forma discriminatória em uma revista que tranças "para quem tem cabelo ruim é uma salvação", um fã fez o seguinte comentário em um portal de noticias, :   
      Quando falam que cabelo duro não existe, o objetivo não é evitar que os donos de cabelos crespos fiquem "tristinhos", é apenas afirmar um assunto estudado em Biologia. Os cabelos lisos e ondulados são chamados pelas pessoas com seus devidos nomes, sem apelidos ou palavras pejorativas. Então, por que somente o cabelo crespo não pode ser chamado com o nome devido? E a senhora do primeiro comentário escreveu uma grande bobagem, ao dizer que "problematizam o nosso belo vocabulário". Triste é usar uma palavra errônea, ser informada de tal uso e ainda achar que tem o direito de modificar o nosso belo vocabulário. O cabelo de afrodescendentes tem nome. 

      Quem compartilha da opinião dessa senhora, achando que tudo isso é uma loucura das pessoas por não se aceitarem negras, posso responder com certeza, pois sou negra, que é exatamente o contrário. Isso é amar ser negro, amar o grupo étnico a que pertence. Um amor que não permite aceitar as pessoas nomeando de qualquer jeito seu símbolo de identidade. Falta de aceitação e reconhecimento seria ouvir as pessoas fazerem tão pouco de suas características ao ponto de se recusar a chamar o cabelo crespo pelo nome correto.      

      Alguns dirão que sempre falaram assim e isso não é ofensa, quando dizem cabelo duro ou ruim não pensam no significado encontrado no dicionário, afirmam que é apenas "modo de dizer" e a significação para eles é o nome dos cabelos de afrodescendentes. Pensando assim, podemos usar modos de dizer pra tudo, posso dizer que o pássaro nada e o peixe voa, basta quem ouvir compreender que não é isso o que quero dizer. 

      Segundo o pensamento do fã, tudo isso é mimimi. Antigamente chamavam pessoas portadoras da Síndrome de Down de mongol ou mongoloides e deficientes físicos de aleijados, um grande absurdo e falta de respeito. Nos dias de hoje, só de lermos essas palavras sentimos certa repulsa, conseguimos perceber rápido que algo está muito errado e ofensivo ao usarem elas. Nos anos 80, as pessoas eram chamadas assim até na TV em reportagens explicativas sobre o tema. Se fosse nos dias de hoje, ao ser informada do nome correto da síndrome e da forma correta da deficiência motora de alguém, a pessoa diria que é mimimi.  

       Por sinal, só vejo esse tal mimimi ser usado em situações de falta de respeito às pessoas. Se não acha um fato relevante ou quer tentar invalidar um discurso, basta dizer que é mimimi. Se um familiar seu estiver doente e você ficar triste e chorar no trabalho, para quem não conhece a pessoa doente será um fato irrelevante e em vez dela se calar e cuidar dos próprios afazeres vai dar palpite dizendo esse mimimi bestial pra você.
       
       Há quem diga que falta de informação não é racismo ou injúria racial, que sempre vai existir um assunto do qual seremos ignorantes, mas se recusar a aceitar a nomenclatura do corpo humano por mero capricho ou achismo sem se importar em inferiorizar um grupo não é aceitável. Essa recusa em usar o nome correto como é feito nos outros cabelos, sinaliza intolerância. Algo tratável procure um especialista, cuide-se.                                                                                                                                        

 

Tipos de cabelo segundo o grande Atlas do Corpo Humano

      Raça é um conceito usado para categorizar diferentes populações de uma mesma espécie: A humana. A raça humana possui grupos de pessoas que têm características físicas em comum: cor de pele, estatura, olho, cabelo etc. Nos grupos foram encontrados três tipos de cabelo humano: liso, ondulado e crespo. Somente esses. 

Seguem, segundo o dicionário Michaelis, os significados das palavras duro e ruim:

Ruim: ru.im adj m+f (lat vulg *ruinu, de ruina)

1 Mau (física ou moralmente). Destituído de mérito. 3 Que não serve para nada; que não tem valor. Corrupto, estragado, podre. 5 Inferior, somenos. 6 Imoral. 7 Velhaco. Funesto. 9 Nocivo, pernicioso. 10 Malvado, perverso.

Duro: du.ro adj (lat duru) 

1 Difícil de penetrar, de cortar, de desgastar-se. 2 Sólido. 3 Rijo.4 Consistente: Tem carnes duras. 5 Desagradável ao ouvido. 6 Árduo, áspero.7 Enérgico, forte. 8  Rigoroso, cruel, implacável:  Que dura sorte! 9 Coagulado.10 fam Que está na idade madura. 11 Custoso, difícil: A vida está cada dia mais dura. 12 Nefasto, funesto. 13 Molesto, incômodo. 14 Penoso, triste. 15  Ereto. 16 Apinhado, compacto: O cinema estava duro de gente. 17 gír Valente, resistente. 

Etnia: Grupo biológico culturalmente homogêneo. Do grego ethnos, povo que tem o mesmo ethos costume, língua, raça, religião etc. O termo não é sinônimo de raça, pois a palavra raça tem um sentido exclusivamente biológico. 

Grupo étnico: Um grupo de indivíduos que tem uma certa uniformidade cultural, que partilha as mesmas tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento.

Miryam, Ferron. Jordy, Rancano - 2007. Grande Atlas do Corpo humano.
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=duro
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=ruim
http://www.coladaweb.com/geografia/racas-humanas
http://www.geledes.org.br/integrantes-da-banda-fly-sao-acusados-de-racismo/#gs.9ePaUQ4
http://www.significados.com.br/etnia/
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